O planejamento urbano moderno percorreu um caminho complexo desde suas origens românticas até as realidades urbanas contemporâneas. Esse processo foi marcado por ideais utópicos, erros conceituais e consequências não intencionais que moldaram profundamente nossas cidades.
As raízes do planejamento moderno remontam ao final do século XIX, com figuras como Camillo Sitte. Em sua obra “A construção das cidades segundo seus princípios artísticos” (1889), Sitte defendia uma abordagem experiencial do desenho urbano. No entanto, sua ênfase nos “conflitos” de tráfego inadvertidamente entregou o desenho das ruas aos engenheiros, um legado que persiste até hoje (BURAS, 2019).
Na Alemanha, um movimento expressionista utópico ganhava força no início do século XX. Inspirados por visões fantásticas de cidades de cristal, arquitetos como Bruno Taut sonhavam com ambientes urbanos transformadores. Após a Primeira Guerra Mundial, esse idealismo se converteu no racionalismo da Neue Sachlichkeit, buscando soluções práticas para a crise habitacional (FRAMPTON, 2007).
Projetos de habitação social como o Siedlung Siemensstadt em Berlim (1929-1931) exemplificam essa transição. Embora visassem melhorar as condições de vida dos trabalhadores, esses conjuntos introduziram o modelo problemático de blocos isolados em meio a áreas verdes (MUMFORD, 2000).
Na Inglaterra, as ideias de Ebenezer Howard sobre cidades-jardim ganhavam força. Raymond Unwin, em “Town planning in practice” (1909), buscou aplicar esses conceitos, mesclando-os com referências medievais. Embora mais sensível ao contexto local que os modernistas continentais, Unwin também falhou em prever o impacto do automóvel no tecido urbano (HALL, 2002).
O ponto de virada veio com Le Corbusier e o CIAM (Congresso Internacional de Arquitetura Moderna). Rejeitando a cidade tradicional como obsoleta, Le Corbusier propôs uma visão radicalmente nova baseada em torres isoladas, zoneamento funcional e separação de pedestres e veículos. Essas ideias, codificadas na Carta de Atenas (1933), se tornaram dogma para gerações de planejadores (FRAMPTON, 2007).
A experiência nacional com Brasília representa o ápice dessa visão modernista. Projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, Brasília foi concebida como uma utopia urbana, materialização dos princípios do CIAM em escala monumental. Inaugurada em 1960, a nova capital simbolizava o desejo de um Brasil moderno e progressista (HOLSTON, 1989). O plano piloto, com seu eixo monumental e superquadras residenciais, exemplifica a abordagem funcionalista do urbanismo modernista: a cidade foi organizada em zonas distintas para trabalho, moradia, lazer e circulação, seguindo à risca os preceitos da Carta de Atenas (BURAS, 2019).
No entanto, a realidade de Brasília logo revelou as limitações desse modelo. A escala monumental e a rígida separação de funções resultaram em uma cidade dependente do automóvel e carente de vitalidade urbana. As áreas planejadas contrastam fortemente com as cidades-satélite não planejadas que surgiram para abrigar a população de baixa renda, evidenciando as contradições sociais do projeto modernista (HOLSTON, 1989).
Apesar disso, Brasília permanece como um experimento urbano de enorme relevância. Sua construção influenciou o planejamento urbano em todo o mundo em desenvolvimento, servindo como modelo para novas capitais e projetos urbanos de larga escala. Ao mesmo tempo, suas falhas contribuíram para uma reavaliação crítica dos princípios modernistas no planejamento urbano (SEGAWA, 2010).
Já a partir dos anos 1960, uma reavaliação crítica do modernismo começou a ganhar força. Figuras como Jane Jacobs, Lewis Mumford, Kevin Lynch e outros ofereceram perspectivas alternativas sobre o planejamento urbano. Esta crítica ao modernismo, bem como o subsequente surgimento do pós-modernismo no planejamento urbano, são temas complexos que serão explorados em maior detalhe em artigos futuros. O declínio do paradigma modernista foi simbolizado pela demolição do conjunto habitacional Pruitt-Igoe em St. Louis em 1972, frequentemente citada como “a morte da arquitetura moderna” (JENCKS, 1977). Este evento marcou o início de uma reavaliação crítica do planejamento modernista e seus impactos nas cidades.
Paralelamente, nos subúrbios americanos, uma versão degradada do modelo de parque inglês se disseminou. Inspirado originalmente pelos jardins pitorescos do século XVIII, esse modelo foi adaptado para o uso do automóvel, resultando em loteamentos monótonos e dependentes do carro (FISHMAN, 1987).
Hoje, enfrentamos as consequências dos erros do planejamento modernista: cidades fragmentadas, comunidades isoladas, dependência excessiva do automóvel e perda de identidade local. A compreensão dessa trajetória é fundamental para corrigir o rumo e criar cidades mais humanas, sustentáveis e vibrantes no século XXI.
Ao voltar nossa atenção para as raízes históricas do planejamento urbano, encontramos lições valiosas nas tradições do planejamento clássico. Exemplos notáveis incluem a Roma de Sixtus V, o plano de L’Enfant para Washington D.C., e a transformação de Paris por Haussmann. Estes projetos demonstram uma abordagem integrada ao planejamento urbano que contrasta fortemente com os princípios modernistas. Eles enfatizavam a criação de espaços públicos monumentais, eixos visuais impressionantes e uma hierarquia clara de ruas e praças, elementos que foram frequentemente negligenciados no planejamento modernista.
O desafio atual é recuperar o melhor da tradição urbanística – a riqueza espacial das cidades históricas, a integração com a natureza das cidades-jardim, a preocupação social do modernismo – sem cair nos mesmos erros do passado. Isso requer uma abordagem holística que integre planejamento, arquitetura e desenho urbano, sempre com foco na experiência humana da cidade.
Como argumenta Léon Krier, é preciso superar o “medo do atraso” que ainda domina muito do pensamento urbanístico e reconhecer que há lições valiosas a serem aprendidas com a cidade tradicional. Ao mesmo tempo, devemos abraçar as possibilidades tecnológicas e sociais do presente para criar ambientes urbanos verdadeiramente adequados ao século XXI (KRIER, 1998). O caminho à frente passa necessariamente por uma reconciliação entre tradição e inovação, entre a escala humana e as demandas da vida contemporânea. Só assim poderemos superar o legado problemático do planejamento modernista e criar cidades que sejam não apenas funcionais, mas também belas, sustentáveis e promotoras de uma autêntica vida urbana.
Referências Bibliográficas:
[1] BURAS, N. H. The Art of Classic Planning: Building Beautiful and Enduring Communities. Cambridge: Harvard University Press, 2019.
[2] FISHMAN, R. Bourgeois. Utopias: The Rise and Fall of Suburbia. New York: Basic Books, 1987.
[3] FRAMPTON, K. Modern Architecture: A Critical History. London: Thames & Hudson, 2007.
[4] HALL, P. Cities of Tomorrow. Oxford: Blackwell, 2002.
[5] HOLSTON, J. The Modernist City: An Anthropological Critique of Brasília. Chicago: University of Chicago Press, 1989.
[6] JENCKS, C. The Language of Post-Modern Architecture. New York: Rizzoli, 1977.
[7] KRIER, L. Architecture: Choice or Fate. Windsor: Andreas Papadakis Publisher, 1998.
[8] MUMFORD, E. The CIAM Discourse on Urbanism, 1928-1960. Cambridge: MIT Press, 2000.
[9] SEGAWA, H. Arquiteturas no Brasil 1900-1990. São Paulo: Edusp, 2010.
Revisão: Camila Bernardino | Edição: Robertha Silveira
