Entrevista com Alejandro Garcia Hermida sobre a Escola de Verão (Espanha/Portugal)

Entrevista com Alejandro Garcia Hermida – Arquiteto e Professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Politécnica de Madri | Diretor Executivo e Fundador da Fundação Culturas Construtivas Tradicionais | Fundador e Vice-presidente do INTBAU Espanha.

“Dr. Alejandro García Hermida atuou como professor de prática profissional na Universidade Alfonso X el Sabio e como pesquisador visitante na Escola de Arquitetura da Universidade de Notre Dame, além de ter ministrado palestras em diversas escolas de arquitetura de várias universidades. Sua atuação profissional concentra-se na arquitetura e construção tradicionais, bem como na restauração e no estudo de edifícios históricos, principalmente na Espanha e no Marrocos. Ele é membro do conselho da organização sem fins lucrativos Terrachidia e consultor estratégico da Kalam Corporation nos EUA, empresa da qual foi CEO anteriormente. Alguns de seus trabalhos foram premiados, incluindo o Prêmio de Excelência INTBAU (2015), o Prêmio Hispania Nostra (2019), uma menção honrosa nos Prêmios UE-Europa Nostra (2019), o Prêmio de Arquitetura Philippe Rotthier (2021), o Prêmio Nacional de Artesanato da Espanha na categoria de promoção (2021) e, recentemente, o Prêmio Arthur Ross na categoria de Educação, concedido pelo Instituto de Artes & Arquitetura Clássica (ICAA).” (LINKEDIN, 2026)[1]

Daniela: Bem Alejandro, em nome do IBAT/INTBAU Brasil, eu gostaria de agradecer por nos conceder essa entrevista e nos contar um pouco mais sobre essa iniciativa.

Alejandro: É um prazer! 

Daniela: Para começar, você poderia nos contar brevemente a origem dessa iniciativa e qual a sua missão?

Alejandro: A origem já remonta há algum tempo. Teve início em 2012, motivada pelo fato de Richard Driehaus ter se apaixonado pelo trabalho de Rafael Manzano quando este ganhou o Prêmio Driehaus em 2010. Na época, ele decidiu anunciar que criaria um prêmio na Espanha para homenagear o trabalho do Rafael e que este levaria seu nome. Quando isso aconteceu, ele precisava que alguém estivesse à frente, foi quando entraram em contato comigo e comecei a organizar tudo. Desde o início eu sabia que um prêmio de arquitetura na Espanha, voltado à Nova Arquitetura Tradicional, não teria um impacto se não viesse acompanhado de outras iniciativas. Então, para que as pessoas compreendessem o que realmente queríamos promover com o prêmio[2], precisaríamos fazer outras coisas. Preparei uma série de propostas para Richard Driehaus – iniciativas que ajudariam a transmitir a mensagem – não apenas com a premiação mas, com outras atividades e ele aprovou a maioria delas. Muitos desses projetos receberam apoio e começamos a implementá-los ao longo dos anos. As Escolas de Verão[3] começaram em 2014, esse foi o primeiro ano, uma espécie de teste inicial, digamos assim. Era um programa diferente, mais curto, não era exatamente da maneira que é hoje mas, foi a primeira Escola de Verão que fizemos. O programa foi evoluindo ao longo dos anos e temos aprendido com as experiências anteriores (refinando) até chegarmos a sua forma atual, embora continuemos aperfeiçoando as coisas. No entanto, o formato atual começou a ser implementado em 2016, 17. Foi naqueles anos que a estrutura que temos hoje foi estabelecida. A distribuição de tempo entre análise e projeto, por exemplo, foi ajustada naquela época e tem se mantido até hoje. Após o falecimento de Richard Driehaus em 2021, decidimos criar a Fundação Culturas Construtivas Tradicionais[4]. Até então, nossa equipe trabalhava de forma pontual, projeto a projeto, digamos assim. Tínhamos muitos projetos em andamento e cada um de nós trabalhava de forma autônoma. Quando Rafael faleceu, pensamos: “Certo, agora nós precisamos de uma entidade para manter esses projetos em andamento e facilitar o recebimento de doações e todo o suporte.” Precisávamos ter um nome com o qual as pessoas pudessem se identificar e que unificasse a identidade de todos os projetos que desenvolvíamos. Assim, os compreenderíam como partes de um mesmo corpo. Foi o que fizemos, unificamos a identidade de todos os projetos debaixo de uma mesma abordagem, uma estrutura sólida que atende as regulações da Espanha para organizações sem fins lucrativos e visam ainda, obter as melhores condições para o apoio dos doadores, respaldo institucional etc.

Daniela: Qual o principal objetivo da Escola de Verão? O que vocês esperam que os participantes aprendam ao longo dessas duas semanas?

Alejandro: Basicamente, o objetivo central da Escola de Verão é compartilhar um ensino em arquitetura que mostra o quanto podemos aprender com os lugares existentes. Especialmente aqueles lugares que se provaram bem-sucedidos, que são amados e valorizados pela comunidade. E então, aplicar essas lições ao projeto contemporâneo. Paralelo a isso, buscamos compartilhar alguns valores através do programa, que seriam: colaboração e espírito de equipe. Para que entendam que o projeto é também uma forma de trabalhar em conjunto e somar conhecimentos, habilidades e entendimento sobre os lugares. Destaco, ainda, outros valores como: compromisso, empenho e paixão. E parte do que significa incutir essa paixão, engloba passar por um programa extremamente intenso, bastante intenso, eu diria. Essas coisas não constam no cronograma mas, faz parte de como conduzimos as coisas, é o que eu espero que levem pra casa. Além disso, bons vínculos, boas amizades, novas habilidades e ideias através da troca com os participantes e com o corpo docente.

Daniela: O que torna a metodologia da Escola de Verão única?

Fig.1: Alejandro, membros do corpo docente e participantes da Escola de Verão Ibérica em Arquitetura Tradicional 2026 promovida pela Fundação Culturas Construtivas Tradicionais – Alfama, Lisboa
Fonte: Ganna Ostapenko 

Alejandro: Eu acho que o que a torna única é o nosso excelente corpo docente: pessoas muito experientes em ensinar, que lecionam em escolas de arquitetura bem distintas, cada um com sua própria abordagem e diferentes escolas de pensamento mas, todos eles têm algo em comum: são pessoas muito legais (risos)… e isso é fundamental!  Acredito que a forma que conduzimos a experiência, mesmo em um programa tão intenso, a torna divertida. Pois tudo é colocado de uma maneira positiva, não se trata de pressionar ninguém mas, de incentivar todos a aproveitar e darem o seu melhor. Mas sempre de forma leve como quem diz: “Vamos criar algo lindo juntos!”

Daniela: Como é a rotina dos participantes? Poderia descrever um dia típico na Escola de Verão?

 

Fig.2: Escola de Verão Ibérica 2026, Fundação Culturas Construtivas Tradicionais – Carnide, Lisboa
Fonte: Ganna Ostapenko

Alejandro: Então, a rotina diária? Pouquíssimo tempo livre. (risos) Quase inexistente, eu diria. E desenhar, desenhar, desenhar… desenhar, desenhar… desenhar, desenhar (mais risadas)… desenho à mão. Podendo ser em ambientes internos ou externos mas, desenhar. E à noite as palestras, aproveitando até mesmo aquele pequeno intervalo antes do jantar, para que eles não interrompam a continuidade do trabalho. Porém, ao mesmo tempo, dando a eles novas ideias e perspectivas sobre o assunto no qual estamos trabalhando. Além disso, há bastante tempo de convivência e oportunidade para se criar laços. Isso acontece mesmo não tendo tempo pra isso, acontece no caminho.

Daniela: Quais são as principais atividades desenvolvidas ao longo do programa?

Alejandro: Basicamente, roteiros para desenhar e exercícios voltados a diferentes tipos de análise em locais selecionados. E então, o trabalho em ateliê, focado no projeto e no refinamento dessas análises. Além de palestras e oficinas com mestres construtores do lugar onde a Escola acontece. Nunca mencionei isso em outros lugares mas, algo que é único do nosso programa – voltando a pergunta sobre o que torna a metodologia única – é que ele sempre acontece em lugares diferentes. Talvez não seja uma exclusividade nossa e outros programas também façam mas, temos feitos isso de forma consistente ao longo dos anos. Trata-se, portanto, de um programa itinerante. Feito também de maneira a tornar a experiência nova para o corpo docente. Sempre é em um lugar novo do qual aprendemos e que passamos a conhecer melhor ao preparar a Escola de Verão e, ainda mais, no decorrer do programa. Dessa forma, continuamos aprendendo. Eu não digo que se fosse feito no mesmo lugar não aprenderíamos, porém, seria mais repetitivo. Haveria menos sede ao descobrir o lugar, estudá-lo e de trabalhar nele. Na verdade seria fácil para nós fazer sempre no mesmo lugar e da mesma maneira mas, é muito mais prazeroso fazer assim. 

Daniela: Desenho à mão desempenha um papel central na metodologia da Escola, por que essa habilidade é tão importante e qual o valor prático na formação do arquiteto?

Alejandro: Eu diria que o desenho à mão sempre foi, e ainda deveria ser, a base da formação em arquitetura. Pois, é a habilidade que permite que você reflita e pense sobre os lugares existentes. Também permite, de maneira não dissociada, que você expresse o que imaginou para aqueles lugares. Toda ferramenta tem limitações relacionadas ao quanto você pensa e expressa no que desenha. Mas, especialmente ferramentas digitais, sem dúvidas, restringem a sua forma de expressão de várias maneiras. Por exemplo, os desenhos em CAD limitam sua forma de expressão, até a IA tem limitações que conduzem você por um padrão. Coisas que você imagina para um lugar, entende ou aprende, acabam perdendo riqueza se você não usa o desenho à mão. Por isso, considero essa prática essencial. Além disso, para memorizar esses lugares, o desenho funciona muito bem. É como escrever: quando você estuda algo e faz anotações, a informação fica gravada na memória de uma forma diferente de quando você apenas lê. A escrita envolve um processo que ajuda a reter a informação e o mesmo vale para o desenho. Acredito que tirar uma foto não funciona tão bem quanto desenhar.

Fig.3: Escola de Verão Ibérica 2026, Fundação Culturas Construtivas Tradicionais – Carnide, Lisboa. Fonte: Ganna Ostapenko

Daniela: A escola também envolve mestres artesãos locais. Como esse contato contribui para a formação dos participantes?

Alejandro: Acredito ser importante sob dois diferentes aspectos. Por um lado, é importante entender o valor e a natureza das técnicas construtivas tradicionais dentro da arquitetura e assim valorizar a qualidade e a durabilidade inerentes a esse tipo de trabalho. E por outro lado, é importante jogar luz ao fato de que as próprias tradições, a cultura da construção, específica de cada lugar do mundo, depende de decisões arquitetônicas. E que sem o envolvimento de nós, arquitetos, essas tradições construtivas desaparecerão. Assim, no caso deste ano, ao termos artesãos de azulejaria de Lisboa, não se resume a aprender a técnica em si, as possibilidades que ela oferece ou as vantagens que ela tem para as edificações. Também se trata de reconhecer que, se não nos importarmos com a existência dessas tradições locais nos nossos projetos, toda essa cultura e conhecimento se perderão e nós, arquitetos, apesar de não sermos os únicos culpados, integraríamos parte da destruição dessa cultura.

Fig.4: Oficina de Azulejaria, Escola de Verão Ibérica 2026, Fundação Culturas Construtivas Tradicionais – Universidade Nova de Lisboa. Fonte: Ganna Ostapenko

Daniela: Como é desenvolvido o projeto final? Os estudantes trabalham com problemas reais? Como esse processo se desenrola?

Alejandro: Em geral, antes da Escola de Verão começar, sempre nos reunimos com a respectiva Câmara Municipal, às vezes não apenas com a Câmara Municipal mas também com agentes locais, para entender quais são seus planos e aspirações para o futuro, o que eles desejam alcançar ou no que eles estão trabalhando. Então ajustamos o projeto da Escola de Verão àqueles desejos e aspirações. Assim, tudo que faremos estará conectado com o que a comunidade busca. Claro que, não seguimos à risca o que nos é passado, nós adicionamos ao projeto de acordo com o que achamos ser adequado ao lugar mas, basicamente, a demanda vem deles. É parte fundamental do programa que a demanda seja real, com necessidades reais e não apenas situações hipotéticas do tipo “vamos fazer um projeto para qualquer coisa…” porém, algo útil para a cidade. Assim, tentamos ajudar a formar a visão que eles têm, a visualizar todo esse potencial de maneira bela, esse é nosso objetivo. Afinal, nós, arquitetos, podemos ajudar. Essa é nossa especialidade, nós temos essa imaginação, somos treinados pra isso, podemos ajudá-los nessa descoberta. Coisas que eles sequer estavam cogitando ou esperando encontrar e que são possíveis. Por exemplo, neste caso, trabalhávamos em um bairro bastante precário, mas com muitas oportunidades de embelezamento e melhoria, além de desafios relacionados à segurança e desigualdade. Muitas vezes, não se imagina fazer esse tipo de intervenção, que pode até mesmo ser rentável para a localidade em termos econômicos, a não ser com um grande investimento e sem desvincular o local do seu próprio caráter e identidade, tornando-o belo, seguro e inclusivo para as comunidades que ali vivem. Eu acho que este caso, em Lisboa, ilustrou isso com particular clareza, devido justamente ao tipo de bairro em que trabalhávamos com a Câmara Municipal.

Fig.5: Alejandro, presidente da associação de moradores das Galinheiras, membros da Câmara Municipal de Lisboa e participantes da Escola de Verão Ibérica 2026 – Fundação Culturas Construtivas Tradicionais. Fonte: Ganna Ostapenko

Daniela: Todos os anos a escola acontece em uma região diferente da Espanha ou de Portugal. Por que mudar o local é tão importante na abordagem pedagógica? 

Alejandro: Faz parte da nossa maneira de aproveitar o programa ainda mais e está, também, transmitindo uma mensagem. Se você olhar para todas as Escolas de Verão juntas e para os projetos desenvolvidos em cada uma delas, poderá extrair lições interessantes sobre o quão variadas e ricas são essas tradições. Poderá perceber como, em cada lugar, trabalhamos com tradições, materiais e personalidades muito diferentes, o que evidencia essa pluralidade. Se reunirmos esse trabalho, na verdade poderemos fazer isso em algum momento – talvez até uma publicação sobre o trabalho completo das Escolas de Verão, o que certamente faremos. Há essa variedade, essa riqueza e… em cada lugar, há características únicas que podem ser, e já estão sendo, incorporadas em novos projetos.

Daniela: Quem pode participar? O programa é voltado exclusivamente a arquitetos ou está aberto a estudantes e profissionais de outras áreas?

Alejandro: Como temos um número crescente de aplicações, a seleção do programa é bastante exigente em termos de motivação: “Por que você quer participar?” E o que realmente queremos é ter um grupo que sintamos que irá se beneficiar de ter participado, que realmente aplicará o que ensinamos, que quer extrair o melhor do aprendizado e que demonstre verdadeira paixão pelo que podemos oferecer. Não gostaríamos de ter pessoas que não tenham ideia do que esperar do programa ou que não planejam usar o que ensinamos como base para suas carreiras, a seleção é pautada nisso. O que implica priorizar pessoas que estão trabalhando ou estudando arquitetura, urbanismo ou campos correlatos. Mas sempre tivemos, exceto por este ano, participantes de outras áreas também. Levando em conta se eles possuem uma conexão clara com o tema e podem realmente se beneficiar desse tipo de formação em suas áreas de atuação. Por exemplo, no ano passado, tivemos um engenheiro civil que trabalhava com estações ferroviárias. Ele valorizava a arquitetura tradicional das antigas estações em que atuava e queria entender melhor como incorporar essas tradições às novas estações da companhia. É bom que alguém assim esteja interessado e queira aprender sobre o assunto. Às vezes temos pessoas da área da construção, já tivemos pintores e até mesmo filósofos e profissionais de outras disciplinas. Mas queremos pessoas que realmente tenham uma razão ou motivo especial para vir para esse programa e que se interessem pelo que o programa tem a oferecer. Embora não seja restrito a arquitetos, o fato é que quem mais se beneficiará serão principalmente os arquitetos ou os estudantes de arquitetura. 

Daniela: Como funciona o processo seletivo? O que vocês procuram nos candidatos?

Alejandro: Motivação. E não importa se o candidato está no primeiro semestre de arquitetura ou trabalhando há cinco anos como arquiteto. A questão é: “O que você espera obter desse programa?”; “O que te atrai nas nossas iniciativas e o que sabe sobre elas?”; “Como gostaria de aplicar o que ensinamos no futuro?”; “Quais são suas expectativas?”, esse tipo de coisa.  Queremos pessoas apaixonadas, portanto. Pode ser que falhemos, às vezes (risos)… Mas, no fundo, essa é a base do que tentamos destacar quando estamos revisando as candidaturas.

Daniela: Muitos brasileiros têm receio quanto a exigência do idioma. Qual o nível de inglês recomendado, não ter o nível exigido pode se tornar uma barreira significativa?

Alejandro: Sim, pode ser uma barreira significativa. É tudo em inglês, não tem jeito. Temos pessoas do mundo todo e a única maneira de garantir um entendimento mútuo é usando um idioma em comum. Todas as palestras, todas as instruções, tudo é transmitido em inglês. É necessário, na verdade é um pré-requisito, para conseguir acompanhar. Caso contrário, você pode até participar, mas perderá muita informação e não aproveitará tanto a experiência.

Daniela: Para candidatos internacionais, especialmente os brasileiros, quais são as maiores dificuldades e como você recomendaria que eles se preparassem?

Alejandro: Eu os incentivaria a ler sobre Arquitetura Tradicional, leiam Leon Krier, por exemplo. Talvez seja o trabalho teórico mais sintetizado sobre Arquitetura & Urbanismo Tradicionais. Também recomendaria que desenhassem e testassem suas habilidades, aproveitando o processo para ver se gostam, pois é algo que eles terão que fazer todos os dias. Por isso, é realmente importante ter certeza que gostam de desenhar. Além disso, sugiro acompanhar o trabalho da nossa Fundação e se inteirar de tudo que ela oferece. Por exemplo, nós temos centenas de vídeos no YouTube, mais de quatrocentos, na verdade. Temos dois canais, um deles é o Prêmio de Artes[5] da Construção e o outro é para atividades gerais da Fundação[6]. Nesses canais, há bastante documentário sobre arquitetos que estão atuando com arquitetura tradicional hoje em dia. Assim, eles já podem ir aprendendo apenas assistindo a esses vídeos. Há centenas de palestras de diversos tópicos, sempre relacionadas à construção, arquitetura e urbanismo tradicionais. Acredito que explorar esse tipo de conteúdo, que é de fácil acesso e alguns vídeos duram de vinte a cinquenta minutos, permite que você absorva muito desse conhecimento e venha para a Escola de Verão com uma compreensão mais ampla desse campo de estudo. Sabendo, por exemplo, quem está fazendo o quê; o que pode ser feito hoje ou de que maneira essas práticas acontecem; e quais ideias ou fundamentos estão definindo o que se faz ou se busca hoje através da Nova Arquitetura Tradicional. Há também muitas publicações, incluindo a revista especializada[7], com acesso aberto, que eles podem baixar para examinar os projetos e ler as publicações. Eles podem baixar também diversos livros, até mesmo livros da Escola de Verão, e ver o trabalho que foi feito. Assim, podem examinar esse material e compreender melhor do que se trata.

Daniela: Vocês disponibilizam bolsas de estudo? Como elas funcionam e quais conselhos você daria para os candidatos que buscam apoio financeiro?

Alejandro: As oportunidades de financiamento variam. São definidas anualmente para que possamos buscar doadores e apoio adicional à nossa base de recursos e assim sejamos capazes de oferecer bolsas aos estudantes e facilitar ainda mais a participação de todos. Mas essas bolsas são limitadas… sempre. Dependerá dos recursos levantados. Obviamente que todos que estão vindo já estão sendo financiados por nós. O custo de cada participante é de 2.500,00 euros (aproximadamente 14.000,00 reais) e cobrimos a maior parte. Assim, tornamos acessível. Eu sei que algumas pessoas acharão caro, mesmo sendo 400,00 ou 500,00 euros (entre 2.300,00 e 2.900,00 reais aproximadamente) mais os custos com as passagens. Ainda assim, queremos sempre manter uma quantia pois, achamos que também é importante que se comprometam. Nunca teremos bolsas, para todos, que cubram 100% dos custos. Algumas pessoas podem conseguir cobertura total, pois temos bolsas desse tipo disponíveis mas, queremos que o programa envolva algum pagamento por parte do participante, mesmo que não seja muito. Você também precisa se empenhar, faz parte do compromisso: “Ok, esta é a sua formação, se você é apaixonado por esse programa, nós vamos tentar torná-lo o mais barato possível pra você mas… pague alguma coisa!” Acredito que é importante pelo valor intrínseco, mesmo que sempre digamos o quanto custa para nós, só para as pessoas terem em mente: “Nós estamos investindo nisso pra você. Portanto, aproveite ao máximo, pois é uma oportunidade única.” Nem todo mundo entregaria essa oportunidade e a tornaria acessível tanto quanto possível, cobrindo a maioria dos custos  (incluindo  instituições educacionais); não é o tipo de condição que costumam oferecer.

Daniela: A Escola de Verão reúne participantes de diversos países. Como essa diversidade internacional enriquece a experiência?

 Alejandro: Enriquece muito, nós amamos! Nós amamos ter pessoas de toda parte… é algo absolutamente enriquecedor! É tão diverso… diferentes faculdades, diferentes nacionalidades… é lindo! A forma como tudo se revela enquanto estamos projetamos e também quando estamos fazendo as análises. As diferentes formas de desenhar, as diferentes formas de compreender os lugares ou de entender o processo de projeto é algo sempre… é fantástico! Normalmente, buscamos ter bastante diversidade, a única dificuldade para nós são os vistos e toda a burocracia. O processo às vezes é duro e acabamos perdendo pessoas no caminho. Três, quatro ou mais participantes têm seus vistos rejeitados todos os anos. Dependendo de onde eles são, o processo é mais fácil ou mais complicado. Porém é uma realidade, acontece e nos afeta. Durante a seleção somos podados por essas questões. Mas, ainda assim, conseguimos manter essa diversidade. Todo ano temos participantes de todos, ou quase todos, os continentes e isso tem ocorrido de forma consistente ao longo das edições. 

Fig.6: Escola de Verão Ibérica 2026, Fundação Culturas Construtivas Tradicionais – Galinheiras, Lisboa. Fonte: Ganna Ostapenko

Daniela: Na sua opinião, qual a maior transformação que os participantes geralmente vivenciam, após terem participado da Escola de Verão?

Alejandro: Essa não seria uma pergunta pra mim, acho que seria uma pergunta para os participantes. Você, por exemplo, poderia responder melhor do que eu, vou pular essa. O que consigo perceber é que eles continuam se falando, às vezes trabalham juntos, colaboram em projetos, eles meio que formam uma rede. Isso é o que consigo ver. Mas não posso responder pelo resto. 

Daniela: Ok, respondendo à pergunta, eu diria que a maior transformação, ou melhor, o que mais me marcou, foi o quão maravilhosa e generosa é a equipe e o corpo docente. E o quanto vocês fazem todos se sentirem bem recebidos. Quanto ao programa em si, eu diria que a maneira que vocês ensinam a abordar o local, foi o que mais se destacou pra mim. Não se trata apenas de desenhar, mas de nos ensinar a usar o desenho como forma de refletir sobre o lugar, utilizá-lo para pensar sobre o espaço, no comportamento das pessoas, como elas interagem com a arquitetura e como aquelas áreas são projetadas para permanência e se são agradáveis de estar. Também gostei da maneira como vocês nos ajudaram a perceber a poesia de cada local e como um bom projeto urbanístico e uma boa arquitetura podem criar lugares onde as pessoas realmente querem passar o tempo. Então, muito obrigada! 

Alejandro: Eu que agradeço!

Daniela: Bem, estamos quase terminando. Há algum projeto ou história de ex-alunos que tenha inspirado ou marcado sua equipe?

Fig. 6: Ateliê de Projeto, Escola de Verão Ibérica 2026. Fonte: Fonte: Ganna Ostapenko

Alejandro: Muitas histórias. Temos participantes que venceram nossas competições, participantes que conquistaram prêmios e reconhecimento por seus próprios trabalhos, premiações de arquitetura. Temos participantes que tem feito trabalhos belíssimos, que foram publicados e divulgados. E toda vez que vejo essas coisas eu fico feliz por eles! Não digo que elas acontecem por causa do nosso programa, é mérito deles mas, acredito que provavelmente, nossa proposta também tenha contribuído um pouco para essa trajetória pessoal. Eu sempre fico feliz quando vejo essas coisas acontecerem, de fato, é algo recorrente. Também fico igualmente feliz quando os vejo juntos, como por exemplo,  em equipes para competições ou grupos de trabalho. Sem dúvida, é uma evolução bonita de se ver. Outro aspecto muito interessante é como muitos participantes começam outros programas educacionais, o que também é muito legal. Ver como essa iniciativa se replica por meio de organizadores de outros programas em diversas partes do mundo – programas que são diferentes –; naturalmente, esses programas assumirão formatos distintos em cada lugar. Apresentarão foco, estrutura e contexto diferentes; também serão adaptados às suas próprias demandas, mas, de alguma forma, serão inspirados pela experiência deste programa. Afinal, é algo que eles levarão consigo. Há inúmeros exemplos de pessoas que, de alguma forma, desempenharam um papel fundamental na implementação de outros programas.

Daniela: Para finalizarmos, por que você acredita que iniciativas, como a da Escola de Verão Ibérica, são importantes para o futuro da Arquitetura Tradicional?

Alejandro: Eu acho que elas são necessárias. Sem dúvidas, existem cursos que oferecem treinamento em Arquitetura Tradicional, claro! Mas, muitos deles ficam nos Estados Unidos e não são acessíveis para a maioria das pessoas, assim como alguns que estão na Europa. Por isso, ter programas que estão fora de grandes instituições, capazes de oferecer algo mais acessível, tanto em termos de tempo quanto de custo, abre portas para muita gente. Não é um ano inteiro de formação em arquitetura, são apenas duas semanas. Ter essa oportunidade de oferecer uma introdução a muitas pessoas abre caminho para que elas se aprofundem no assunto depois. E talvez, até busquem aprender Arquitetura Tradicional por conta própria. É importante ter programas desse tipo para expandir o máximo possível essas oportunidades, permitindo que mais pessoas descubram esse campo de estudo. Caso contrário, não seria fácil para elas. Não é todo mundo que pode dizer: “Vou passar um ano nos Estados Unidos ou vou passar um ano em qualquer outro lugar”, ou ainda “Vou gastar todo esse dinheiro”. Às vezes, elas nem têm conhecimento desse tipo de programa, e talvez as Escolas de Verão sejam, em algum momento, mais conhecidas que os programas de arquitetura maiores. Por isso, acredito que essa seja uma forma importante de engajar mais e mais pessoas.

Daniela: Conversei com muitos deles e me impressionou – não sei como eles ficam sabendo do programa –, mas fato é que muitos deles não estavam tão familiarizados com os motivos de manter as tradições vivas. Então, foi muito interessante ver que, mesmo sem saber muito a respeito, eles ainda comparecem, demonstram interesse e estão dispostos a participar. 

Alejandro: É bem assim. Pessoas que nunca vivenciaram uma atividade educacional com esse tipo de foco não conseguem nem entender direito do que se trata, justamente por nunca terem tido contato com o assunto. É uma descoberta, de certa forma, do tipo: “Ah, então era isso que eles queriam dizer!” mas é muito bom! Eles acabam gostando, alguns até se surpreendem – “Estamos mesmo fazendo isso?” –, e aproveitam a experiência. Eles passam pela experiência e, depois, podem decidir se irão usá-la ou não, mas o aprendizado fica ali com eles. É assim mesmo. 

Daniela: Sim. Bom, muito obrigada Alejandro!

Alejandro: Disponha e obrigado também! Você tinha uma missão importante com essa longa entrevista, na verdade, achei que as perguntas abordaram tudo muito bem. De fato, foi uma boa entrevista, muito completa. Obrigado!

Daniela: Muito obrigada! 

Alejandro: De nada!

Depois da entrevista eu abordei alguns participantes com uma das perguntas que eu respondi ao Alejandro e essas foram suas respostas: 

Sophia McNiff[8] – mestranda em Arquitetura na Universidade de Notre Dame, EUA “Minha maior transformação foi aprender a observar mais atentamente o ambiente que estou projetando, para embasar meu próprio trabalho de urbanismo e arquitetura. Fazer isso enquanto ouvia e incorporava o feedback de um grupo diversificado e internacional de colegas, me ajudou a captar o espírito do lugar — as Galinheiras[9] — e, ao mesmo tempo, acolher críticas externas como uma oportunidade de crescimento.”

Jared Poulter[10] – 7º semestre de Arquitetura na Utah Valley University, EUA
“A Escola de Verão transformou completamente a minha visão sobre o espaço urbano e como ele ajuda comunidades e indivíduos a prosperar. Me fez perceber o quão incríveis poderiam ser nossas cidades e despertou em mim ainda mais paixão para fazer o que estiver ao meu alcance a fim de tornar isso uma realidade.”

Landon Warner[11] – 3º semestre na Faculdade de Arquitetura da Universidade Católica da América, EUA
“A maior transformação, pra mim, foi aprender que o entorno de um espaço público funciona como as paredes desse espaço. Entender como pensar o urbanismo sob uma perspectiva arquitetônica, perceber que ambos precisam atuar em conjunto, foi uma descoberta para mim. Foi fascinante a analogia do conceito de tigmotaxia[12] aos seres humanos e em como criamos espaços públicos para atender às nossas necessidades desde os primórdios. Eu nunca havia pensado em urbanismo como a criação de um ambiente que é, na verdade, uma sala aberta para o céu. Em Lisboa, havia muitos espaços públicos onde se podia olhar ao longo de uma via e ver a perspectiva terminar em um agrupamento orgânico de edifícios: uma igreja, um castelo ou um mirante com vista para a cidade. Eu não havia me dado conta de que poderia considerar essas vistas como parte integrante do próprio espaço.”

Țăruș Anca Andreea – estudante do 9º semestre na Universidade de Arquitetura e Urbanismo Ion Mincu em Bucareste, Romênia
“Para mim, a Escola de Verão Ibérica ofereceu muito mais do que eu esperava. Foi uma experiência que me proporcionou novas ideias, conexões significativas e uma confiança muito maior. Uma das mudanças mais importantes que vivenciei, após as duas semanas em Lisboa, foi a transformação na maneira como abordo o desenvolvimento de uma proposta de projeto. Compreendi o quanto a fase inicial de pesquisa é essencial, não apenas para entender o espaço em si mas, também, as necessidades das pessoas que o utilizam. Percebi também que, para avançar, é fundamental aprender com o passado. Compreender a história e a identidade de um lugar, fornece a base para intervenções com significado e substância, que respeitam o que já existe e, ao mesmo tempo, atendem às necessidades atuais. Como resultado, a proposta torna-se uma resposta natural, moldada por uma observação atenta e pela compreensão de como o espaço é vivenciado pela comunidade. Foi um privilégio participar deste projeto e recomendo a todos os interessados ​​que se inscrevam. É uma experiência verdadeiramente valiosa, pessoal e profissionalmente.”

Entrevista realizada em 19 de julho de 2026 na Universidade Nova de Lisboa, Portugal durante a Escola de Verão Ibérica em Arquitetura Tradicional, uma iniciativa promovida pela Fundação Culturas Construtivas Tradicionais. 

Roteiro: Pietra Viola
Entrevista, transcrição e tradução: Daniela Meneses
Imagens: Ganna Ostapenko[13]

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Referências e Notas de Rodapé

[1] https://www.linkedin.com/in/alejandro-garc%C3%ADa-hermida-b7012081/

[2] https://www.instagram.com/premiorafaelmanzano_

[3] https://culturasconstructivas.org/iniciativas/formacion/escuela-de-verano/

[4] https://culturasconstructivas.org/

[5] https://www.youtube.com/@premiosartes

[6] https://www.youtube.com/@culturasconstructivas

[7] https://www.traditionalarchitecturejournal.com/index.php/home

[8] https://www.instagram.com/rose_architect__?igsh=NzkxYXJ1aHp0eXY3

[9] Bairro onde foi feito o projeto de intervenção da Escola e Verão Ibérica de 2026

[10] https://www.instagram.com/jaredpoulter?igsh=MWxtencwMGFleW8zNA==

[11] https://www.instagram.com/abideintheclassics?igsh=MTl4aDlsZ2R1amtjNQ==

[12] A tigmotaxia é a resposta de um organismo, seja por movimento físico ou orientação, ao toque ou contato com uma superfície sólida. Frequentemente, manifesta-se como um comportamento de “seguir a parede”, no qual animais em um espaço aberto novo ou amedrontador permanecem próximos às bordas para se sentirem seguros.

Tipos de tigmotaxia: 

  • Tigmotaxia positiva: O organismo move-se em direção a uma superfície ou objeto, ou permanece em contato com ele;
  • Tigmotaxia negativa: O organismo afasta-se do contato físico ou evita espaços apertados.

Exemplos comuns: 

  • Roedores e peixes: camundongos, ratos e peixes-zebra mantêm-se próximos às paredes de um novo aquário ou arena quando se sentem ansiosos ou estressados;
  • Insetos: baratas espremem-se em fendas estreitas e vãos escuros em busca de proteção; 
  • Humanos: pessoas que circulam por um ambiente escuro ou desconhecido frequentemente deslizam as mãos pelas paredes de forma natural para se orientar.

[13] https://www.instagram.com/ganna_ostapenko.k?igsh=MXhzbHF0ZHdoZHk5Zg==

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