O crescimento explosivo de cursos no campo da arquitetura tradicional em todo o mundo

O texto a seguir foi originalmente publicado em inglês no portal britânico Building Design e pode ser acessado por meio do link:

The explosive growth of courses and classes in traditional design

Acesso realizado em 31 de março de 2026.

 

Um novo e florescente interesse pela arquitetura tradicional e pelo desenho urbano está ocorrendo ao redor do mundo, desafiando as convenções dogmáticas de nossa profissão e do ensino, escreve Robert Adam.

 

Durante décadas, todo o ensino de arquitetura na Europa foi culturalmente homogêneo. Caso o trabalho não fosse apresentado como uma proposta inventiva e radical, o estudante encontrava grande dificuldade. Projetos tradicionais e clássicos eram diretamente opostos a esse tipo de ensino. Se você tentasse seguir por esse caminho, frequentemente era orientado a mudar — podendo até mesmo ser reprovado.


Quando o Instituto do Príncipe de Gales foi inaugurado em 1992, havia uma escola de verão e um curso dedicados ao ensino da arquitetura tradicional, mas a formação foi encerrada após alguns anos. O que hoje é a King’s Foundation continua com alguns programas educacionais.

 

No novo milênio, mais cursos começaram a surgir. Em 2008, foi lançado um curso de verão na Romênia, em parte voltado às técnicas construtivas tradicionais. Desde 2011, o curso Part II da Kingston University, em Londres, passou a incluir um módulo dedicado à arquitetura clássica. 

Em 2014, teve início uma escola de verão na Espanha e em Portugal, com ênfase na arquitetura vernácula. Em 2016, iniciei uma escola de verão de um mês dedicada à arquitetura clássica na Suécia.

 

Nos últimos cinco anos, houve uma verdadeira explosão de cursos sobre projeto tradicional e clássico em toda a Europa. Escolas de verão foram abertas na Bélgica, com ênfase nos ofícios; na Holanda, voltadas ao urbanismo tradicional; na Itália, concentradas em Palladio; na Finlândia, explorando a arquitetura tradicional nacional; na Noruega, combinando tradições locais e desenho urbano; e na Áustria, baseadas na metodologia de Christopher Alexander. Meu curso na Universidade de Oxford aborda composição e simbolismo clássicos.

 

Fora da Europa, também há cursos no Catar, no México e no Brasil. Esses programas possuem relação com a International Network for Traditional Building, Architecture and Urbanism (INTBAU).

Além disso, o Centre for the Study of Classical Architecture da Universidade de Cambridge oferece um curso de cinco semanas. Há também a Create Streets Summer School, com forte ênfase no urbanismo; o Classic Planning Institute, que promove um Salon of Classical Architecture; e meu outro curso na Oxford University consite em aulas noturnas introdutórias à arquitetura clássica.

 

Entre as novidades deste ano estão uma nova escola de arquitetura e ofícios construtivos na Alsácia, uma escola de verão em Budapeste e um novo curso de mestrado em regime parcial na Cambridge University, apoiado pela King’s Foundation e lançado neste mês.

 

Nos Estados Unidos, o panorama é semelhante, mas mais consolidado. A primeira grande mudança ocorreu na University of Notre Dame, em Indiana. Em 1989, foi nomeado Thomas Gordon-Smith, que transformou a escola de arquitetura ao introduzir o ensino da arquitetura clássica.

 

Em 1992, foi fundado o Institute of Classical Architecture and Art, que desde então promove escolas de verão e cursos por todo o país. De 1999 a 2016, Robert Stern foi diretor da escola de arquitetura da Yale University e incorporou a arquitetura clássica a um corpo docente diverso e de excelência.

 

Desde a década de 1990, a University of Miami, o Georgia Tech, a University of Colorado e, a partir de 2020, a Catholic University of America, em Washington, DC, passaram a oferecer currículos igualmente híbridos. Inspiradas pelo sucesso de Notre Dame, a Utah Valley University e o Benedictine College, no Kansas, também iniciaram cursos estruturados em torno da arquitetura clássica.

 

Um aspecto notável dessa transformação tem sido a demanda dos próprios estudantes, muitas vezes sem apoio do corpo docente estabelecido. Na University of Queensland, em Brisbane, e na Norwegian University of Science and Technology (NTNU), na Noruega, estudantes têm pressionado por programas clássicos. Na University of Virginia, um grupo de alunos criou uma Sociedade independente de Arquitetura Clássica.

Encontrar estudantes rompendo deliberadamente com um condicionamento consolidado — sustentado pela ameaça de reprovação — tem um significado que vai além da quantidade.


Os números podem não ser grandes em comparação com as escolas convencionais, e os cursos não se limitam apenas a estudantes de arquitetura. Ainda assim, uma grande proporção de estudantes e profissionais participa deles.


A maioria dos estudantes ingressa nas escolas de arquitetura visando uma carreira, com pouca noção do que encontrará. Na universidade, são incentivados a integrar um grupo de elite com padrões estéticos distintos daqueles do público em geral. Por isso, ver estudantes se afastando deliberadamente desse modelo tem um significado que ultrapassa sua escala.


Concorde-se ou não com esse movimento, trata-se de um fenômeno relevante no ensino de arquitetura. O que o motiva? Só podemos especular.


Seria uma perda de interesse por uma filosofia de projeto que, além de dogmática, já se tornou histórica? Embora apresentada como radical e inovadora, ela é, à sua maneira, convencional.

 

A recusa em aceitar aquilo que a contradiz é prova suficiente de sua rigidez. Isso gera uma nova forma de radicalismo: o tradicional passa a desafiar as convenções da profissão e do ensino.

 

Hoje se reconhece que o projeto tradicional é intrinsecamente sustentável. O uso de materiais locais, a durabilidade das construções, a flexibilidade de uso e a contenção de soluções excessivamente experimentais são fatores que contribuem para a redução do consumo energético nas edificações.

 

Por fim, e talvez de forma mais controversa, o cenário social e político está se afastando das imposições das elites. Isso pode levar os estudantes de arquitetura a buscar não apenas agradar seus pares profissionais, mas também considerar as preferências do público em geral. Pesquisas indicam consistentemente que há uma clara preferência popular pela arquitetura tradicional.

 

Quaisquer que sejam as motivações, é evidente que há um novo e vigoroso interesse pela arquitetura tradicional e pelo desenho urbano. É possível que, à medida que a alfabetização em projeto clássico e tradicional aumente, vejamos uma interessante evolução das tradições — como sempre ocorreu quando elas prevaleceram.

Robert Adam atua há 45 anos à frente de escritórios e é internacionalmente reconhecido como um dos expoentes da nova arquitetura tradicional. Fundou o escritório Robert Adam Architects em 2000 e atualmente exerce sua atividade por meio da Robert Adam Architectural Consultancy. Formado pela University of Westminster, foi bolsista em Roma entre 1972 e 1973. Em 2021, obteve o doutorado em Filosofia, com pesquisa em história da arquitetura moderna, pela Oxford Brookes University. É professor de desenho urbano na University of Strathclyde e autor de numerosos artigos de caráter histórico, crítico e teórico.

 

Foi conselheiro eleito do RIBA (Royal Institute of British Architects) e secretário honorário da instituição entre 2000 e 2003. Fundou a International Network for Traditional Building, Architecture and Urbanism (INTBAU), em 2000, e o Traditional Architecture Group (TAG), em 2003. Entre os diversos reconhecimentos que recebeu, destacam-se o Arthur Ross Award, do Institute of Classical Architecture & Art, em 2005, e o Richard H. Driehaus Prize, em 2017.

 

 O Instituto Brasileiro de Arquitetura Tradicional, fundado em Agosto de 2023, realiza Escolas de Verão todos os anos em dezembro. A edição de 2026 será a terceira do programa e acontecerá na histórica cidade de Ouro Preto, Minas Gerais reconhecida por seu patrimônio arquitetônico e papel fundamental na história da arquitetura brasileira. Para acompanhar as atualizações do evento, siga as redes sociais do IBAT.

 

Tradução: Bruno Perenha | Edição: Bruno Minchilo

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