Será que a arquitetura tradicional agrada mais às pessoas?

Nota: O texto original foi publicado em 11 de setembro de 2026, por Robert Kwolek, projetista sênior de arquitetura da Create Streets. O artigo está disponível na revista Works in Progress. A tradução do texto para o site do IBAT foi autorizada pelo autor.
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O gosto é subjetivo. Mas, quando o assunto é arquitetura, existe um grau surpreendente de consenso.

 

No século XX, ocorreu uma mudança radical na arquitetura mundial. O movimento modernista surgiu na década de 1920, favorecendo projetos desprovidos de ornamentos, tendo materiais aparentes, como aço e concreto, e, ao mesmo tempo, abandonou os complexos padrões visuais do planejamento tradicional e da composição das fachadas. O modernismo passou a dominar a arquitetura mundial na década de 1950 e, embora tenha evoluído e se fragmentado desde então, os estilos dessa vertente continuam predominantes atualmente.

 

Ao longo de sua história, tanto os defensores quanto os detratores da arquitetura modernista concordaram que ela não é amplamente apreciada. Em 1940, o historiador inglês da arquitetura John Summerson observou que o público “não consegue entendê-la, nunca conseguirá e a odeia como veneno”. Em 1977, o crítico de arquitetura teuto-americano Wolf von Eckardt anunciou prematuramente a morte do modernismo, afirmando que “ninguém lamentou”. Ele nunca foi popular”. O jovem Summerson era favorável ao modernismo, enquanto von Eckardt o rejeitava, mas ambos fizeram a mesma observação sobre sua aceitação pelo público em geral.

Summerson e von Eckardt estavam certos? Nos últimos anos, pesquisadores começaram a estudar essa questão de maneira mais sistemática, utilizando pesquisas de preferência visual. Em sua forma mais simples, elas consistem na comparação de duas imagens acompanhada de uma pergunta neutra e imparcial, como “Qual você prefere?”. A possibilidade de recrutar participantes on-line e os avanços na edição de imagens reduziram os custos desse tipo de pesquisa nos últimos anos. Desde a década de 1990, foram realizadas cerca de vinte pesquisas de preferência visual, com amostras adequadamente selecionadas, sobre as preferências arquitetônicas do público.

 

Muitas delas foram realizadas no Reino Unido, em parte porque o apoio do Rei ao urbanismo tradicional gerou um debate particularmente intenso sobre arquitetura no país. No entanto, pesquisas de preferência visual também foram realizadas nos Estados Unidos, no Canadá, nos Países Baixos, em Portugal e no Chile, e o interesse por esse tipo de análise está crescendo internacionalmente.

 

As primeiras pesquisas de preferência visual apresentavam limitações metodológicas importantes. Uma limitação comum era que elas avaliavam respostas a imagens que variavam em diversos aspectos, como o ângulo da fotografia ou as condições climáticas, tornando impossível afirmar que o estilo arquitetônico, por si só, havia causado qualquer diferença nas avaliações. Com o tempo, porém, muito foi feito para atenuar esse problema, mediante o uso de técnicas de edição progressivamente melhores para criar pares de imagens mais controlados. Nos últimos anos, a inteligência artificial reduziu significativamente o tempo e os custos de produção de imagens comparáveis, tornando muito mais viáveis pesquisas de preferência visual confiáveis em grande escala.

 

Em todas as pesquisas realizadas, mais de 60% dos entrevistados preferiram a arquitetura tradicional, e em muitas delas essa preferência ultrapassou 85%. Essa simpatia é surpreendentemente pouco afetada pela idade, pelo gênero, pelas posições políticas, pela classe socioeconômica ou pela nacionalidade. Os resultados não são definitivos, mas sugerem que existe um descontentamento público muito forte com as tendências dominantes da arquitetura moderna. Talvez as impressões anedóticas de Summerson e von Eckardt não estivessem, afinal, tão distantes da realidade.

 

O nascimento das pesquisas de preferência visual

 

A história das pesquisas de preferência visual começa em 1979, na pequena cidade de Metuchen, em Nova Jersey. Metuchen decidiu que precisava de dados sobre a opinião local para orientar suas políticas de projeto e, por isso, encomendou um estudo ao Urban Design Studio da Universidade Rutgers. A equipe da Rutgers tirou centenas de fotografias de ruas e edifícios em Metuchen e pediu aos moradores que os avaliassem durante uma grande reunião pública. Os moradores de Metuchen demonstraram uma preferência esmagadora por ruas com atmosfera tradicional como aquelas de cidades pequenas, fachadas variadas com detalhes e uma escala humana favorável à caminhada. Eles se identificaram com edifícios sem detalhes arquitetônicos e de ruas largas dominadas pelos automóveis.

 

Essas preferências podem parecer óbvias. É claro que uma rua comercial tradicional é mais agradável para caminhar do que uma via expressa com seis faixas de tráfego. Mas, naquela época, o nível de consenso era surpreendente. A pesquisa de Metuchen foi a primeira a demonstrar que as pessoas tendem a apresentar respostas previsíveis e compartilhadas diante de diferentes ambientes construídos, respostas que não são puramente uma questão de gosto individual. A equipe de pesquisa utilizou os resultados para elaborar recomendações para melhorias na paisagem urbana, reformas de fachadas e habitações multifamiliares inseridas em áreas já urbanizadas. Posteriormente, Metuchen desenvolveu um código de projeto com base nessas conclusões.

 

A tradição moderna das pesquisas de preferência visual começa em Metuchen, em 1979. Essas ruas receberam as pontuações de −4,19, −1,38 e +5,07. Fonte: Anton C Nelessen 

 

A pesquisa de Metuchen foi pioneira, mas apresentava algumas limitações evidentes. Em primeiro lugar, os participantes de reuniões públicas não constituem uma amostra representativa da população local. Em segundo lugar, as imagens utilizadas na pesquisa não ofereciam uma comparação perfeitamente controlada, o que dificultava saber exatamente a que os entrevistados estavam reagindo. Será que as pessoas não gostaram da largura da rua, da baixa proporção entre a altura dos edifícios, do estilo das fachadas, da ausência de vegetação, da presença de carros em alta velocidade ou de alguma outra característica? Não podemos saber com base nas respostas a uma imagem individual, embora a pesquisa tenha incluído imagens suficientes para que padrões consistentes começassem a emergir.

 

A partir do final da década de 1980, começou a surgir no Reino Unido uma verdadeira tradição de pequenas pesquisas de preferência visual em arquitetura, começando com um estudo de 1987 realizado por um estudante de graduação de Cambridge chamado David Halpern, que posteriormente se tornou um importante psicólogo comportamental. Halpern mostrou a estudantes voluntários fotografias de doze pessoas e de doze edifícios, pedindo-lhes que avaliassem sua atratividade. Estudantes de diferentes cursos apresentaram opiniões semelhantes sobre quais rostos eram mais atraentes. Quando se tratava de edifícios, porém, os estudantes de arquitetura tinham opiniões radicalmente diferentes das apresentadas por estudantes de outras áreas. Na verdade, suas preferências eram frequentemente opostas.

 

Entre os doze edifícios, este prédio foi classificado em último lugar pelos estudantes que não cursavam arquitetura no estudo de Halpern, mas ficou em segundo lugar entre os preferidos pelos estudantes de arquitetura. Fonte: David Halpern 

 

 

O estudo de Halpern apresentava limitações evidentes: a amostra era pequena e não representativa da população em geral, e as imagens não eram perfeitamente controladas. Ainda assim, o estudo tornou-se um clássico menor, e pesquisas posteriores foram realizadas no Canadá, em 2001, no Reino Unido, em 2015, e no Chile, em 2019, com resultados semelhantes. Esses estudos demonstraram uma ampla divergência entre as opiniões de profissionais e leigos quanto à atratividade visual de diferentes estilos arquitetônicos.

 

A primeira pesquisa de preferência visual com amostragem adequadamente estruturada veio em 1998, conduzida pelo British Market Research Bureau para um grupo do setor chamado Popular Housing Forum. Os entrevistados britânicos receberam conjuntos de cartões com imagens de casas recém-construídas em determinado estilo. Como antes, as imagens não eram perfeitamente controladas, embora o uso de várias imagens em cada grupo compensasse parcialmente essa limitação. Noventa e quatro por cento dos potenciais compradores de imóveis novos disseram que prefeririam morar em uma das opções mais tradicionais, e 92% dos demais entrevistados afirmaram que prefeririam que uma dessas opções mais tradicionais fosse construída nas proximidades de suas residências.

 

Essa pesquisa inicial apresentou aos entrevistados “conjuntos de cartões” com imagens de casas recém-construídas e pediu que escolhessem entre eles, em vez de escolher entre imagens individuais. Da esquerda para a direita, os conjuntos acima foram preferidos por 2%, 37%, 28% e 2% dos potenciais compradores de imóveis novos. Fonte: Robert Adam

 

As pesquisas nas décadas seguintes

 

Nas décadas seguintes, diversas outras pesquisas de preferência visual foram encomendadas por pesquisadores acadêmicos, escritórios de arquitetura, grupos de reflexão (think tanks) e órgãos públicos. A maioria desses estudos foi conduzida por empresas profissionais de pesquisa de opinião, de modo que seus entrevistados eram, em grande medida, representativos da população em geral. No entanto, quase todos ainda utilizavam pares de imagens controlados de maneira imperfeita, o que dificultava ter certeza de que as respostas eram causadas por diferenças no estilo arquitetônico, e não por alguma outra diferença entre as imagens. Além disso, as imagens originais utilizadas em alguns estudos mais antigos foram perdidas, o que dificulta avaliar e atribuir o devido peso às suas conclusões.

 

Entretanto, na medida em que suas conclusões são confiáveis, elas mostram que, embora uma minoria do público aprecie uma arquitetura moderna que procura romper com os padrões convencionais, a maioria prefere edifícios mais tradicionais. Diferentes grupos também respondem aos estilos arquitetônicos segundo padrões razoavelmente consistentes: onde foram coletados dados demográficos, parece haver uma tendência discreta de que homens e pessoas mais jovens sejam mais abertos à arquitetura modernista do que mulheres e pessoas mais velhas. Pelo que podemos constatar a partir dessas pesquisas, contudo, todos os grupos demográficos preferem estilos tradicionais; a preferência é simplesmente mais acentuada em alguns grupos do que em outros. Isso se aplica não apenas a casas, mas também a hospitais e edifícios comerciais e cívicos.

 

A Prefeitura de Bristol, à esquerda, ficou em primeiro lugar, e o Shropshire Shirehall, à direita, em último, em uma pesquisa sobre dez prefeituras encomendada por um grupo de reflexão britânico (think tank). Fonte: Alamy.

 

Uma das melhores pesquisas iniciais de preferência visual foi encomendada pelo escritório britânico de arquitetura ADAM Architecture, em 2009. Quatro edifícios comerciais foram apresentados em perspectivas e condições climáticas semelhantes, dois em estilos tradicionais e dois em estilos modernistas. Ambos os edifícios modernistas haviam recebido prêmios, o que sugeria que eram exemplos especialmente bem projetados. Ainda assim, apenas 23% dos entrevistados os preferiram, em comparação com 77% para os dois projetos tradicionais. As imagens oferecem as melhores comparações controladas de qualquer estudo realizado antes da década de 2020, com perspectivas e condições de iluminação correspondentes.

 

Quatro imagens de edifícios comerciais reais utilizadas em uma pesquisa encomendada por um escritório britânico de arquitetura em 2009. As imagens dois e três foram preferidas por 77% dos entrevistados, em comparação com 23% para as imagens um e quatro. Fonte: ADAM Architecture

 

A descoberta de David Halpern de que os estudantes de arquitetura diferem em seus gostos daqueles de outros cursos foi corroborada por pesquisas posteriores. O pesquisador português Luis Balula realizou uma pesquisa de preferência visual na pequena cidade de Évora, em 2008–2009. Balula dividiu os resultados entre especialistas — arquitetos, urbanistas, incorporadores e acadêmicos — e não especialistas. Ambos os grupos atribuíram avaliações mais altas aos edifícios antigos, mas houve maior divergência quando se tratava de projetos modernos. Por exemplo, os não especialistas tinham uma visão positiva do conjunto de casas em estilo mediterrâneo, de caráter pastiche, apresentado na Figura 7, enquanto os especialistas eram, em geral, negativos. Inversamente, o edifício de apartamentos modernista foi avaliado negativamente pelos não especialistas, mas positivamente pelos especialistas.

 

Luis Balula entrevistou tanto especialistas quanto não especialistas, fornecendo evidências valiosas sobre a divergência entre as opiniões de leigos e profissionais. As diferentes condições ambientais presentes nessas duas imagens significam que elas não podem ser tratadas como um teste A/B direto, mas a diferença nas classificações relativas atribuídas por especialistas e não especialistas continua sendo impressionante. Fonte: Luis Balula.

 

Talvez a diferença entre o gosto dos leigos e o dos especialistas explique por que a preferência do público pela arquitetura tradicional ocasionalmente surpreendeu os pesquisadores. Duas pesquisas de preferência visual foram encomendadas em 2002 e 2005 pela Commission for Architecture and the Built Environment (CABE), um órgão público britânico independente, e ambas encontraram baixos níveis de apoio aos estilos modernos. “A preocupação do Movimento Moderno com a luz, o sol e as grandes janelas deveria conferir ao estilo moderno uma vantagem clara sobre os projetos mais tradicionais, mas essa vantagem parece não ter sido compreendida pelos compradores de imóveis”, observa, com pesar, o relatório de 2005.

 

A era de ouro das pesquisas de preferência visual

 

 

Embora as pesquisas realizadas entre as décadas de 1970 e 2010 fornecessem uma indicação bastante clara de que o público prefere consistentemente a arquitetura tradicional, elas não constituem evidências perfeitas. Comparações controladas de maneira imperfeita e painéis de participantes às vezes auto selecionados fazem com que suas conclusões possam — e frequentemente tenham sido — contestadas.

 

Nos últimos cinco anos, porém, as evidências se fortaleceram rapidamente. Os avanços tecnológicos, especialmente a inteligência artificial, reduziram o custo da edição de imagens, permitindo que as imagens utilizadas nas pesquisas fossem muito mais bem controladas. Ao mesmo tempo, o renovado debate público sobre arquitetura impulsionou um aumento na quantidade de pesquisas de preferência visual, muitas vezes conduzidas por grupos especializados, como o Create Streets, no Reino Unido, ou o The Aesthetic City, nos Países Baixos. Surgiu algo semelhante a uma era de ouro das pesquisas de preferência visual, com um número crescente de estudos de qualidade excepcionalmente elevada.

 

Talvez a pesquisa de preferência visual mais famosa já realizada tenha sido encomendada pela National Civic Art Society, em 2020, analisando edifícios federais e tribunais nos Estados Unidos. Os entrevistados foram convidados a expressar suas preferências entre sete pares de fotografias de edifícios reais, controlados, tanto quanto possível, em relação à volumetria — a forma e o volume de um edifício — e ao contexto. Em todos os casos, enormes maiorias dos entrevistados preferiram os projetos tradicionais, com uma média de 72% nas sete perguntas.

 

O edifício à esquerda foi preferido por 81% dos entrevistados, e o edifício à direita, por 19%. Fonte: National Civic Art Society.

 

 

Assim como em outros estudos, o aspecto mais impressionante é o quanto a clara preferência pelos projetos tradicionais foi pouco afetada por fatores demográficos. Houve quase nenhuma correlação com a filiação política: 70% dos democratas e 73% dos republicanos preferiram os projetos tradicionais. As mulheres demonstraram uma preferência um pouco maior pelos projetos tradicionais do que os homens, com 77%, contra 67%. Entre os americanos brancos, 75% preferiram a arquitetura tradicional, em comparação com 65% dos americanos hispânicos e 62% dos americanos negros. Não foi encontrada correlação significativa com a renda ou o nível educacional, e a idade foi apenas um indicador fraco: 77% das pessoas com mais de 65 anos preferiram a arquitetura tradicional, em comparação com 68% das pessoas entre 18 e 34 anos.

 

Muitas pesquisas modernas de preferência visual foram realizadas no Reino Unido. Em 2023, decepcionado com a proposta de projeto utilitarista para um novo estádio de rúgbi em Bath, na Inglaterra, o pequeno escritório Apollodorus Architecture propôs uma alternativa clássica. O Create Streets então contratou uma empresa de pesquisa de opinião para investigar as opiniões do público sobre os dois projetos, mantendo constantes o contexto e o estilo de representação entre os pares de imagens. Os entrevistados preferiram o projeto tradicional por 74% a 26%. Houve pouca ou nenhuma variação segundo a classe social e apenas uma variação modesta de acordo com o partido político. Como na maioria dos estudos, as pessoas mais velhas foram mais tradicionais do que as mais jovens, mas mesmo os entrevistados de 18 a 24 anos preferiram o projeto tradicional por 61% a 39%.

 

Projetos concorrentes para um estádio em Bath. O projeto clássico recebeu 74% de apoio, contra 26% para o modernista. Fonte: Reproduzido com a autorização da Apollodorus Architecture.

 

 

A mesma tendência aparece em obras de infraestrutura. A High Speed 2 (HS2) é uma ferrovia em construção entre Londres e Birmingham. O Create Streets realizou uma pesquisa de preferência visual comparando os viadutos de concreto projetados para a HS2 com um projeto revestido de tijolos inspirados nos viadutos ferroviários britânicos do século XIX. Mais uma vez, o contexto e o estilo de representação foram mantidos constantes, de modo que apenas os detalhes arquitetônicos variam entre as imagens. A pesquisa revelou uma clara preferência pelo projeto de tijolos, de 69% contra 28%. Esses resultados variaram apenas modestamente segundo as características demográficas: o apoio ao viaduto de tijolos foi ligeiramente maior entre as mulheres do que entre os homens, de 71% contra 66%.

 

De maneira anômala, a pesquisa também constatou que os eleitores do Partido Trabalhista eram ligeiramente mais favoráveis aos projetos tradicionais do que os conservadores, em uma proporção de 72% contra 69%, e que as pessoas mais jovens eram mais favoráveis do que as mais velhas, com 70% no grupo mais jovem contra 64% no grupo mais velho.

 

Projetos de um viaduto para a ferrovia High Speed 2. Fonte: Create Streets.

 

 

Em 2025, o Christ’s College, de Cambridge, anunciou planos para um novo edifício de biblioteca projetado pelo Grafton Architects, um dos escritórios de arquitetura mais prestigiados do mundo. O Create Streets preparou uma contraproposta com a mesma área construída, utilizando o estilo gótico tradicionalmente favorecido pelas faculdades de Cambridge. Em uma pesquisa com mais de 2.000 adultos britânicos, 71% preferiram o projeto tradicional, enquanto apenas 21% favoreceram a proposta original. Assim como na pesquisa sobre a HS2, esse padrão se manteve em todos os grupos demográficos, com pouca variação.

 

Projetos para uma nova biblioteca no Christ’s College, Cambridge. Fonte: Create Streets.

 

Essa preferência se manifesta repetidamente. A varejista britânica Marks and Spencer está planejando demolir um edifício da década de 1920 no centro de Londres e substituí-lo por um projeto moderno. Trabalhando com o arquiteto Francis Terry, o Create Streets propôs um projeto alternativo com a mesma área construída total, mas preservando e ampliando a fachada existente. Em seguida, contratou empresas de pesquisa de opinião para entrevistar 3.130 adultos britânicos a respeito de imagens dos dois projetos, mantendo constantes o contexto e o estilo de representação. Isso produziu a maior diferença de preferência de qualquer estudo do Create Streets, com 79% apoiando a proposta alternativa e apenas 17% apoiando a original. Como de costume, as divisões demográficas mostraram pouca correlação entre o gosto arquitetônico e outras características. Os londrinos tinham uma probabilidade um pouco maior de favorecer a proposta da Marks and Spencer do que a média nacional, mas ainda assim preferiram o projeto de Terry por 72% contra 26%.

 

Projetos para o edifício da Marks and Spencer na Oxford Street, Londres. Fonte: Create Streets.

 

Recentemente, o Create Streets realizou um tipo um pouco diferente de pesquisa sobre um grande empreendimento proposto em Londres, chamado Shoreditch Works. O Shoreditch Works envolveria a demolição de alguns galpões do pós-guerra, que seriam substituídos por edifícios de escritórios muito maiores, em um estilo inspirado na arquitetura comercial vitoriana e no Art Déco.

 

A maioria dos estudos que analisamos procura controlar todos os fatores, exceto o estilo arquitetônico. Nesta comparação, porém, os edifícios propostos eram drasticamente mais altos do que os existentes. A visão convencional é que o público não gosta de empreendimentos de grande altura, o que significa que esse estudo poderia ser considerado “tendencioso” contra a arquitetura tradicional. Ainda assim, em cada caso, entre 76% e 78% dos entrevistados preferiram o projeto proposto à situação existente. Novamente, o apoio às propostas foi ligeiramente maior entre os entrevistados mais jovens do que entre os mais velhos.

 

Na pesquisa sobre o Shoreditch Works, os entrevistados foram questionados: “Aqui estão dois projetos alternativos para a mesma rua, localizada em uma área central da cidade. Se você tivesse que escolher, e todas as outras condições fossem iguais, qual das duas ruas você preferiria?”. Fonte: Create Streets.

 

Os europeus continentais parecem preferir a arquitetura tradicional por margens semelhantes. Em 2025, o grupo neerlandês The Aesthetic City realizou uma pesquisa de preferência visual sobre as preferências arquitetônicas na Holanda. Os entrevistados foram questionados sobre suas preferências entre oito pares de imagens, e os resultados mostraram uma preferência por edifícios tradicionais entre os holandeses que variou de 67% a 92%, com uma média de 82%.

 

O estudo holandês é notável por demonstrar a utilidade da inteligência artificial nas pesquisas de preferência visual. Em todos os pares de imagens, exceto um, foi utilizada uma fotografia de um edifício modernista e, em seguida, a inteligência artificial foi empregada para criar a alternativa tradicional. Isso permitiu que os pares de imagens fossem rigorosamente controlados quanto ao contexto, às condições climáticas e à volumetria.

 

Em uma pesquisa realizada na Holanda pela organização holandesa The Aesthetic City, o edifício à esquerda recebeu 8% de apoio, enquanto o edifício à direita recebeu 92%. Fonte: The Aesthetic City.

 

Mensurando o gosto do público

 

A principal questão de qualquer pesquisa de preferência visual sobre estilos arquitetônicos é saber se seus resultados podem ser generalizados. Os céticos frequentemente argumentam que, quando o público prefere determinado projeto tradicional a um modernista, isso ocorre simplesmente porque aquele projeto modernista específico é ruim. Um edifício modernista melhor, afirmam, poderia ter igualado ou superado a popularidade do projeto tradicional. A suspeita de que a escolha das imagens seja tendenciosa é reforçada pelo fato de que a maioria das pesquisas de preferência visual foi encomendada por organizações favoráveis à arquitetura tradicional, havendo apenas alguns exemplos contrários, como os primeiros estudos da CABE.

 

Ainda assim, é impressionante que todos os pares de imagens pesquisados até agora tenham produzido o mesmo resultado. As pesquisas de preferência visual sobre estilos arquitetônicos ainda estão em fase incipiente: talvez apenas cerca de três dezenas de pares de imagens totalmente controlados tenham sido objeto de pesquisas de opinião, e esses estudos de alta qualidade foram realizados apenas no Reino Unido, na Holanda e nos Estados Unidos. Poderemos tirar conclusões com muito mais confiança daqui a uma década, quando tivermos triplicado ou quadruplicado o tamanho da nossa base de evidências.

 

Até o momento, as evidências sugerem que entre 70% e 90% da população apresenta uma preferência clara pela arquitetura tradicional. Essa preferência permanece surpreendentemente inalterada por outras características demográficas. Homens, pessoas mais jovens e, talvez, pessoas mais ricas tendem a apresentar uma probabilidade ligeiramente maior de favorecer a arquitetura moderna, mas essas tendências não são marcantes. Todos os grupos demográficos favorecem o projeto tradicional: homens e mulheres, jovens e idosos, ricos e pobres.

   

Se isso for verdade, surge uma questão ainda mais intrigante. Quase todas as faculdades de arquitetura do mundo ensinam exclusivamente estilos de caráter amplamente modernista, e provavelmente mais de 99% dos arquitetos trabalham exclusivamente com eles. No Reino Unido, praticamente não houve nenhuma encomenda pública em estilo tradicional desde a década de 1950, e apenas um pequeno número de encomendas comerciais e institucionais. Com exceção do mercado de habitações privadas, os estilos tradicionais estiveram praticamente extintos durante sete décadas. Embora, em alguns casos, isso possa ser explicado por normas urbanísticas contrárias à arquitetura tradicional, a tendência geral continua evidente em jurisdições cujos sistemas de controle do desenvolvimento urbano são estilisticamente neutros.

   

Em outras palavras, parece haver uma divergência misteriosa entre as preferências declaradas e as preferências reveladas das pessoas. Por que estamos encomendando estilos dos quais não gostamos?

   

Há várias explicações possíveis e interessantes. Mas a investigação dessas hipóteses é uma questão para o futuro.

 

Tradução: Pietra Viola Siquieroli e Bruno Perenha
Revisão: Fernando Silva 

 

 ¹N.T.: Uma pesquisa de preferência visual apresenta aos participantes imagens de diferentes projetos ou ambientes e pergunta quais eles preferem. Ela busca identificar padrões nas preferências estéticas do público e verificar se essas preferências variam de acordo com fatores como idade, gênero ou contexto social.

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